João Marçal (Santarém, 1980) tem vindo a desenvolver desde 2001 um corpo de trabalho, no campo da pintura, centrado em torno da problemática da representação fotográfica. O jovem pintor apropria-se de logótipos de marcas conhecidas do merchandising fotográfico para questionar o domínio da fotografia na cultura visual contemporânea. A alusão à imagem fotográfica é feita de modo indirecto, sendo esta, no entanto, centralizadora do discurso do artista. Se o resultado final do trabalho de Marçal pode ser definido como pintura, as problemáticas que aborda, a simbologia e cultura que incorpora, pertencem ao domínio da pintura.
O nascimento da fotografia criou um impacto profundo na estética da pintura. Se a história da arte até meados do século XIX era centrada na ideia da criação de uma ilusão da realidade, na mimessis do real, com a invenção da fotografia, este pressuposto é posto em causa. A fotografia captura de uma forma mais económica, célere e fiel essa mesma realidade. A mecanização deste processo vai pôr em causa os pilares temáticos da pintura. Anuncia-se a morte da pintura... A pintura reage. Encontra uma forma de se recriar e reafirmar. Os pintores deixam de se centrar no relato mimético e objectivo do mundo exterior, para se centrarem na subjectividade de si próprios. Surge, neste momento, a principal cisão que irá separar a pintura da fotografia: se a primeira apresenta um olhar subjectivo e ficcionado a segunda assenta na objectividade e na verdade. O que a segunda metade do século XX faz à fotografia e à pintura, é interrogar essas qualidades inerentes.
A investigação de João Marçal situa-se exactamente no epicentro dessa divergência. Um dos seus primeiros trabalhos [Sem título (parte de trás de papel fotográfico), 2001] recria, numa tela, o verso de uma fotografia. Esta obra, inscrita no âmbito do hiper-realismo, é já denominadora de uma das preocupações centrais do seu trabalho: a contestação do imperialismo da verdade fotográfica. O que é que está por detrás de uma fotografia? O que é que vemos quando olhamos uma fotografia, e o que que fica invisível? Ocultas ficam as 'costas' das imagem: a impossibilidade física de simultaneamente ver frente e verso, mas também tudo que nos é negado. O exercício que o artista desenvolve, de questionar a visão do mundo como transmitida pela imagem fotográfica, apresenta-se como uma crítica engenhosa ao automatismo imagético cuja veracidade é frequentemente, duvidosa.
O segundo momento da sua investigação concretiza-se na sua primeira exposição individual. "Oll Korrect" (PêSSEGOpráSEMANA, Porto, 2003). O título da mostra é um gracejo com a expressão mundialmente utilizada: OK, que provém das iniciais de um erro ortográfico na frase "all correct", escrita "oll korrect". Esta expressão nasce de um equívoco, um erro, mas com a sua globalização perde a sua origem, a sua autenticidade, para ganhar uma nova dimensão. A verdade é apresentada, mais uma vez, como algo construído. Nesta instalação, Marçal expõe quatro telas iguais com ok escrito e dispostas em 4 posições diferentes. A repetição da mesma imagem tornar-se-á uma estratégia recorrente no percurso artístico de Marçal, aludindo ao facto de a mesma imagem poder ter diversas leituras.
Este trabalho inicia uma pesquisa em torno das imagens corporativas e das simbologias dos logótipos das marcas de material fotográfico. O design identitário impera actualmente como uma preocupação central destas gigantes empresas. Os seus logótipos excedem simples traduções gráficas para acarretarem em si a própria ideologia da companhia. À imagem gráfica são sobrepostas camadas de simbologia e significação. Cada nova imagem, cada nova utilização da marca, adiciona novo significado.
Assim, uma cópia é sempre mais do que uma duplicação. A sucessiva repetição da mesma imagem permite a emergência do desvio, da diferença. As imagens perdem o estatuto de cópias para passarem a constituir-se como simulacros. Afirma Gilles Deleuze que "o conceito de simulacro envolve uma discussão sobre igualdade e diferença, semelhança e disparidade, representação e criação." É exactamente esta discussão que Marçal quer incitar (particularmente com a sua exposição "Repetição e Diferença", Salão Olímpico, 2004) forçando o espectador a sair da sua passividade e a entrar num diálogo com a obra e a sua simbologia.
A fotografia, para além do seu estatuto artístico, é actualmente um bem comercial de consumo massivo. Essa perspectiva da fotografia como bem global de consumo é abordado no projecto "MarchFilms", no qual João Marçal cria uma marca imaginária de produtos fotográficos e encomenda a conjunto de designers a criação de uma identidade para a marcae seus produtos. Para poder ser-se imperador neste novo império, exerce-se o domínio não sobre súbditos, mas sobre mercados, circuitos de produção e distribuição de bens. E nesta nova guerra entre os vários imperadores, o poder sedutor da imagem é uma das armas mas poderosas.
A ideia do poder da imagem das marcas, ou seja da iconografia contemporânea, é explorada nas mais recentes pinturas de Marçal agora expostas na Galeria 24b. Numa imagem criada para ilustrar o convite da exposição, Marçal apresenta duas caixas de artigos fotográficos que se assemelham a naves voadoras a sobrevoar um novo território, com uma legenda: ps. I love hue. Marçal apropria-se do título de uma canção de Kid 606, ps. I love you, para lançar o mote da mostra: referências à cultura contemporânea e à história da Arte recente e a citação, manipulação e contaminação que Marçal faz destas no âmago das suas preocupações estéticas e teóricas, averiguando novos territórios para a criação artística.
Nestas pinturas, a participação do espectador é novamente solicitada. O que lhe é pedido é o exercício, ou teste, de reconhecimento das marcas evocadas em cada uma das telas. Como um jogo, o espectador é convidado a contemplar o puzzle, e só o poderá fazer se possuir os conhecimentos necessários. Se umas imagens são de fácil reconhecimento, com
Code, outras necessitam de uma cultura mais especializada. Este processo (jogo) de autenticação converte-se num momento central de encontro do espectador com a obra.
Se a estética e a temática de Marçal são produto das radicalizações Pop, a nível formal o artista descontextualiza estas referências, transformando-as em imagens que se aproximam do abstraccionismo geométrico manipulado digitalmente. As suas obras situam-se na ambiguidade entre o uso objectivo da forma e da cor com a subjectividade das citações que as imagens referenciam.
Poderão símbolos culturais, densos conceptualmente, ser alvo de desmaterialização ideológica e transformarem-se em meros signos formais? Poder-se-á apagar a subjectividade de iconografias de massa, ou será uma imagem sempre constituída por camadas significativas que superam a simples análise formal?
João Marçal, numa estratégia simultaneamente crítica e inquisitiva, explora a cultura visual contemporânea: a sua construção, difusão massificada e a reacção que provoca em cada espectador perante o seu domínio.
Texto originalmente publicado no catálogo da exposição P.S. I love Hue, uma edição da Galeria 24b